30.5.07

pílulas de texto: Um sertanejo vindo para a cidade

1


Vinha Rubens no trem avistando a paisagem da cidade de São Paulo. Agora quando estava mergulhado neste mundo de casas humildes e grande quantidade de comércio, a sua curiosidade, enfim, estava saciada, mas vinha-lhe o medo de não se dar bem por ali - realmente aquilo tudo estava lhe botando medo. Conferia a sua bagagem, numa atitude cautelosa, pois muitos tinham lhe falado de larápios que existiam por lá. Agora confirmava se a sua carteira estava realmente no bolso da calça, e ao encontrá-la sentiu-se aliviado e lembrou que ali estavam todas as suas economias e era o dinheiro que ele tinha conseguido na venda de seus animais e todos os seus eletrodomésticos. Sentia, mais do que nunca, que estava arriscando-se e que aquilo era uma aventura perigosa, era a sua primeira vez na capital, e tinha no bolso, um endereço de um amigo, e que ficava próximo da estação onde iria descer do trem. Já passara por tudo, favelas, casas de periferia e agora eram os prédios, uma infinidades deles, e só de pensar que na sua cidade natal não havia nenhum, isso já o deixava feliz, pois o que ele queria ver era o progresso. Pensava consigo mesmo que gostaria de ter bastante dinheiro somente para possuir um edifício daqueles e poder subir e descer de elevador a hora que bem quisesse, moraria no último andar, de lá, poderia avistar todo aquele horizonte novo e deslumbrante, e se sentiria forte e poderoso, chegando mesmo a duvidar se realmente teria coragem de abrir uma janela naquela altura, mas o sonho ainda continuava de pé. Agora ficava admirando as árvores entre os prédios. Eram magníficas, identificava-se mais com elas do que com aquelas construções verticais e gigantescas. Verde era somente uma parcela da parcela de tudo o que via passar, notava que seus olhos estavam irritados e que deveria ser aquela nuvem de fumaça que existia em cada palmo do que via, batia o vento em seu rosto e as lágrimas eram arrastadas em direção à suas orelhas, abria seus olhos para captar esperanças, era a única coisa que podia fazer, o resto era continuar sentado na poltrona do trem e esperar chegar ao destino. Sentia-se chorando sem ao menos estar triste. Percebia, agora, que esta era a última oportunidade de comer alguma coisa que o sustentasse - estava com muita fome, não tinha comido nada o dia inteiro, pois não tinha coragem de ir ao vagão restaurante e deixar alguém desconhecido tomando conta de sua bagagem. Somente mastigou um chocolate e tomou um refrigerante que eram vendidos no corredor do trem por um garoto que tinha sotaque da capital. Então resolveu pegar a bóia que estava dentro da sua sacola para caso de emergência, levantou-se pegou-a, abriu e tirou uma vasilha que estava embrulhada com uma toalha e um papel, onde tinham pedaços de uma galinha que escapara da venda que fez de todos os seus animais. Pegou uma coxa com a mão, rasgou o pedaço de papel e usou-o como guardanapo, ofereceu, gentilmente, ao passageiro que ia ao seu lado, que agradeceu, mas não aceitou, começou a se deliciar, pois tinham muitas horas que não colocava nada em sua boca. Quando olhou para o céu, viu um helicóptero cortando, isso fez o frango até ficar mais suculento, já tinha visto “um”, mas muito distante, esse para ele, era uma novidade, imagine, podia até ver uma luizinha lá dentro, verde e bem brilhante, isso o espantava, imagino como poderia alguém voar dentro daquilo, tão alto, e só tirou os olhos dele quando este sumiu entre os prédios que passavam no meio da paisagem, tinha visto aviões nesta viagem, mas o helicóptero, esse sim, ele considerava extraordinário, e dessa vez ele tinha percebido a hélice na calda e se indignava como uma máquina daquelas precisasse de tanta ventilação, e dava as últimas bocadas naquela coxa, mesmo sem ter onde pregar o olho. Pensava consigo mesmo quanta coisa viria a conhecer pessoalmente em que antes só conhecia pelo seu televisor preto e branco que vendeu para viajar. Lá estava ele com o osso na mão quando escutou o comentário que só faltavam vinte minutos para chegarem na estação da Luz, então, como estava perto da janela, jogou o osso e o guardanapo improvisado num embrulho só pela janela, pois sentia-se, de alguma forma, afobado. Fechou novamente sua marmita e guardou dentro da sacola , que já deixou perto de suas pernas no chão, lugar que ele julgou mais estratégico.


2

Neste momento, os dois lados da ferrovia eram murados e só dava para ver os prédios e os carros que rapidamente eram vistos nos vãos dos cruzamentos. Agora passava outro trem que ia no sentido oposto na outra linha e pensou que se tivesse de voltar, tinha de ser de helicóptero, forçando assim, para ver se ficava mais entusiasmado, pois estava faltando coragem, já tinha visto um montão de bairros e aglomerados residenciais e punha em dúvida se mesmo conseguiria encontrar a casa do seu amigo, apesar dele ter anotado tudo devidamente no papel que ele carregava na carteira, ali tinha anotado o ônibus que tinha de tomar, e onde encontrá-lo e tudo isso preocupava Rubens, que até a aproximação da noite o deixava inseguro. Chegava a pensar se realmente encontraria pessoas na rua para lerem as informações, foi quando percebeu que o sol estava se pondo e que o céu estava alaranjado e que as luzes dentro dos vagões tinham se acendido, e que muitas pessoas ali já estavam pegando suas malas em cima, no porta malas. Daí se dirigiu a pessoa que ia ao seu lado e perguntou quase aflitivamente:
- Estamos chegando?
E a outra pessoa respondeu:
- Se quiser pode ir preparando, tirando o resto de suas bagagens ai de cima pois daqui a alguns instantes o trem pára na estação.
Rubens, escutando aquilo, agradeceu, mas a sua preocupação tomou conta de todos os seus pensamentos, sentia seu coração pulsar em alta velocidade e foi tirando suas troxas e ficou atento aos acontecimentos, foi quando percebeu que as luzes da cidade também estavam sendo acesas, agora os automóveis que via aos montes trafegavam por imensos viadutos com seus faróis, tudo teria ficado mais desconhecido ainda, mas teria de se aprontar para essa dura realidade, não tinha jeito, então como sabia que tinha um tempinho para dar uma rezadinha, pôs-se a rezar até que o trem parasse.
E isso aconteceu quando pararam os barulhos e os solavancos e todas aquelas vibrações de toda a viajem, lá estava ele fazendo o sinal da cruz e fazendo o mesmo que o homem que ia ao seu lado, tudo de maneira rápida e o mais ágil possível e já estava escutando o barulho ensurdecedor da cidade, vinha de todos os lados e era mesmo assustador e junto as pessoas falando alto e saindo da plataforma, e para lá caminhava Rubens, quando saiu do trem, reparou que junto saia uma imensa multidão de viajantes, despediu-se do homem que estivera com ele a maior parte da viagem e seguiu o rumo daquela massa humana e de repente, lá estava ele com toda a sua bagagem no meio da rua sem saber como se comportar. Conseguiu sair da estação ferroviária sem ao menos olhar um detalhe daquele magnífico prédio, pois seguiu no meio do fluxo de pessoas que andavam apressadamente, e agora estava solitário no meio da calçada, na frente de um semáforo e não sabia o que fazer, estava confuso, não sabia a quem se dirigir até que abriu o farol verde para os carros e eles começaram a andar, era mesmo uma infinidade de carros, de todos os tipos imagináveis.


3


E foi neste movimento todo que encontrou Carlos, um vendedor de chicletes de farol , e era a única pessoa ali enquanto os carros andavam, e foi a quem Rubens se dirigiu, e comprimentou:
-Boa noite
O vendedor respondeu:
-Boa noite
E foi Rubens, pegando sua carteira onde tinha a anotação do número e o nome da linha de ônibus. E Carlos rapidamente disse a Rubens:
-Se precisar ler eu não posso prestar essa ajuda, eu não sei ler.
Ai Rubens respondeu:
-Eu também não sei, e também não me lembro direito o nome, se não me engano é Favela do Moinho.
Olha que coincidência, é lá mesmo que eu tenho o meu barraco, mas eu vou a pé mesmo, todas as noites, quando acabo de vender os meus chicletes, eu vou a pé para economizar, né?
-E que horas você pára de vender, porque se for cedo eu pago sua passagem de ônibus e nós vamos juntos.
-Acabo lá pelas oito horas, mas desse jeito você pode dormir no meu barraco, porque tem muito espaço, pois hoje não tem sessão espírita, ai amanhã você vai procurar o seu amigo.
Então fechou o farol novamente e Carlos falou:
-Espera só um instante, daqui a pouco eu estou de volta.
E ficou ali na calçada no meio dos pedestres, Rubens, observando Carlos vender seus chicletes nas janelas dos automóveis, e ia um por um, desejando boa noite e mostrando a caixinha abarrotada de chicletes de todas as marcas. E foi só o farol ficar verde novamente para ele apressar-se a falar com Rubens:
- É só esperar até as oito horas, aí a gente pega o ônibus e está lá em um instante, eu vou arrumar um lugar pra deixar suas bagagens até lá, e é ali no bar da esquina e depois se você quiser, me ajuda a vender.
Rubens que nunca tinha pensado em vender nada no farol, achou que aquela era um bela alternativa para chegar ao seu destino, e além do mais aquilo era muito fácil.
As horas se passaram rapidamente, Rubens conseguiu vender vários chicletes apesar de se encabular um pouco no começo, nas primeiras abordagens e agora era hora de partir em direção da Favela do Moinho.


4


Pegaram as bagagens no bar e Carlos tomou uma dose de pinga e logo mostrava-se disposto a carregar a sacola de Rubens, saíram, pegaram o ônibus e durante o trajeto Rubens ficou fascinado em ter contato com aquela civilização, agora podia ver os movimentos dos carros em alta velocidade, e a grande quantidade de pedestres andando nas ruas e aquele mundo de sinalização nas ruas, a primeira coisa que impressionou Rubens foi passar na frente de um bingo, ele perguntou ao Carlos em voz discretíssima:
-Isso é a zona?
Carlos respondeu:
- Isso aí é assim porque querem chamar as pessoas para gastarem o seu dinheiro nas máquinas que ficam aí dentro.
E Rubens, espantado, exclamou:
-Máquinas para pegar dinheiro, imagina só, eu não entro aí nem pra conhecer, parece comercial de televisão.
Neste momento estavam chegando perto da favela no ponto onde tinham de descer, levantaram-se e foram pelo corredor, Rubens agora de pé parecia que tinha encontrado um bom ângulo para arregalar os olhos e observar, desceram no ponto desejado, atravessaram uma avenida onde se via o medo estampado claramente no rosto de Rubens e continuaram a jornada até que chegaram em uma pastelaria instalada na calçada, e Carlos falou:
-Agora chegamos, deixa eu comprimentar o pasteleiro meu amigo, que nos já tocamos pra dentro.
Então Carlos comprimentou com um aperto de mão o homem que atendia ali no escuro apenas iluminado por um lampião a gás, ele tinha um avental branco que o deixava parecendo um cientista. E foram os dois para dentro, através de um portão enorme de ferro, feio e abandonado na entrada, dalí dava para ver os primeiros barracos, e um corredor que se estendia para dentro daquele lugar e que desaparecia no escuro, o chão era de terra, os cães latiam à passagem dos dois, então neste momento Carlos começou a explicar algumas coisas a respeito do barraco a Rubens:
-Sabe Rubens, minha mulher tem um salãozinho mas não é salão de beleza, é um salão espírita mas hoje não funciona, tem muito espaço e é lá que você vai descançar, tô falando pra você agora pra depois você não falar que eu não avisei.
Mas você nem vai perceber, além do mais e só colocar um colchão e você vai dormir com bastante tranqüilidade, e a minha esposa a Marta, você vai gostar, ela gosta muito de visitas, e amanhã de manhã você toma um café e nós dois vamos até o barraco de seu amigo, aqui todo mundo se conhece.
Nesse momento já tinham passado por dezenas de barracos cada um com suas características e saíram no meio de um pequeno campo de futebol que segundo Carlos era o meio da favela, e tinha até um barzinho e tudo mal iluminado e sujo, Carlos falou:
- Já estamos chegando, e mostrou um sobrado feito de madeira com uma placa bem na frente escrito, “Centro Espírita” e falou:
-Vamos chegando.
Mal fizeram barulho quando abriram o portão que dava acesso à parte lateral do barraco e uma voz quase feminina gritou:
-Quem vem aí?
E apareceu sua esposa, numa porta lateral que os viu entrando e disse:
-Boa noite Carlos, hoje você trouxe visita ou é mais um precisando de um benzimento?
-Não meu bem, esse aqui vai passar a noite conosco e amanhã ele vai procurar um barraco de um amigo seu, daqui mesmo da área do moinho.
Ela falou:
-Então vamos entrando.




5

Andaram por um corredor cheio de folhagens e até certo modo bem cuidado, coisa que Rubens não tinha visto até o momento, e entraram em uma cozinha, tinha fogão, pia, geladeira e a única coisa estranha eram aquelas paredes de madeira pintadas de cor-de rosa.
Ela falou:
- Sente-se os dois que eu acho que vocês estão com fome.
Rubens:
- Obrigado Dona Marta, eu já estou com a bóia aqui na sacola, e só dar uma esquentadinha e tá tudo certo.
Marta:
-Melhor ainda, eu esquento tudo de uma vez, assim aumenta a quantidade de mistura
Rubens tirou da sacola, desembrulhou aquela comida que não dispensaria, pois seria até um pecado, era a última prova mastigável do seu passado e agora ia ser experimentado por todos.
Carlos agora ligava o rádio que estava em cima da geladeira e sintonizava em uma rádio que tocava música sertaneja e ajustava no volume alto, como para comemorar. Agora comiam os três e Rubens pensava solitariamente se iria ter aquela coragem toda de conseguir dormir no meio de todos aqueles santos que imaginava haver mas tentava não fazer transparecer seu medo.
Acabando o jantar, Carlos deu alguns chicletes para Rubens e falou:
- Isso e pró caso de você ter esquecido das escovas de dentes.
Falou isso e depois mostrou todo barraco a Rubens. Agora ele sabia onde ia dormir era um salão que ficava bem na frente da casa e que a única coisa que possuía de diferente era uma coleção de cadeiras brancas, e na frente das cadeiras, numa mesa, um televisor, que Carlos apontou e falou:
-Vamos assistir o jornal aqui.
Marta agora estava ajeitando o lugar, reunia as cadeiras de modo a sobrar espaço para um cochão e apenas deixou três cadeiras em frente ao televisor.
Rubens aproveitava para mastigar um chiclete e Carlos ligou o televisor, e falou:
-Vamos pegar o jornal das nove.
Enquanto isso vinha Marta carregando um colchão e acomodando atrás das cadeiras, o jornal já havia começado e agora estavam os três atentos, as notícias rolavam e Carlos fazia várias perguntas a Rubens, perguntava o que fazia antes na cidade de onde tinha vindo e porque resolvera vir pra cá, perguntava também a quanto tempo conhecia aquele amigo, se era casado, e Rubens respondia prontamente, até que Carlos perguntou se ele estava com medo de dormir ali e Rubens repondeu:
- Eu não sei até a hora de apagar as luzes.
E os três deram muitas risadas e foi ai que Marta disse que já tinha ouvido falar no seu amigo e disse:
-Infelizmente, ele tinha se transformado em bandido e que fazia parte de uma quadrilha ali da favela, que tinha muitas histórias que eram contadas e que ele mesmo iria escutar hora ou outra.
E foi exatamente por causa disso que hoje Rubens é um famoso Pai de Santo.

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1 Comments:

At 2:22 PM, Anonymous Anônimo said...

Jone, muito bacana sua história!
Bacana também observar como sua produção tem evoluido. Reflexo do seu envolvimento, investimento e do trabalho em conjunto com o Danilo. Parabéns!Tati

 

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